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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Recontextualização


"A impossibilidade é uma condição momentânea, e quem sabe disso não desiste."

Conta-se de um incidente durante a Idade Média em que uma criança de um lugarejo foi encontrada morta. Imediatamente acusaram um judeu de ter sido o assassino, e alegou-se que a vítima fora usada para realização de rituais macabros. O homem foi preso e ficou desesperado. Sabia que era um bode expiatório e que não teria a menor chance e seu julgamento. Pediu então que trouxessem um rabino com quem pudesse conversar. E assim foi feito.

Ao rabino lamuriou-se, inconsolável pela pena de morte que o aguardava; tinha certeza que fariam tudo para executá-lo. O rabino o acalmou e disse: "Em nenhum momento acredite que não há solução. Quem tentará você a agir assim é o próprio Sinistro, que quer que você se entregue à idéia de que não há saída". "Mas o que devo fazer?", perguntou o homem angustiado. "Não desista, e lhe será mostrado um caminho inimaginável".

Chegado o dia do julgamento, o juiz mancomunado com a conspiração para condenar o pobre homem, quis ainda assim fingir que lhe permitiria um julgamento justo e uma oportunidade para que demonstrasse sua inocência. Chamou e disse: "Já que vocês são pessoas de fé, vou deixar que o Senhor cuide desta questão: vou escrever num pedaço de papel a palavra "inocente" e em outro "culpado". Você escolherá um dos dois e o Senhor decidirá seu destino.

O acusado começou a suar frio, sabendo que aquilo não passava de uma encenação e que iriam condená-lo de qualquer maneira. E tal qual previra, o juiz preparou dois pedaços de papel que continham ambos a inscrição "culpado". Normalmente se diria que as chances de nosso acusado acabavam de cair de 50% para rigorosamente 0%. Não havia nenhuma chance estatística de que ele viesse a retirar o papel contendo a inscrição "inocente", pois o mesmo não existia.

Lembrando-se das palavras do rabino, o acusado meditou por alguns instantes e, com o brilho nos olhos, avançou sobre os papéis, escolheu um deles e imediatamente o engoliu. Todos os presentes protestaram: "O que você fez? Como vamos saber agora qual o destino que lhe cabia?". Mais qye prontamente, respondeu: "É simples. Basta olhar o que diz o outro papel, e saberemos que escolhi seu contrário".

Descobrimos então que a chance de 0% era verdadeira apenas para os limites impostos para uma dada situação. Com um pouco (ou muita) da sagacidade da necessidade, foi possível recriar um contexto onde as chances do acusado de superar a adversidade saltaram de 0% para 100%. Ou seja, a simples recontextualização da mesma situação permitiu a reviravolta da realidade.

"O Segredo Judaico de Resolução de Problemas", por Nilton Bonder

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